Compaixão seletiva: por que algumas tragédias nos comovem mais do que outras?
As imagens que chegam da Venezuela são devastadoras. Além de anos de crise política, econômica e social, o país agora enfrenta uma nova tragédia humanitária provocada pelos fortes terremotos que atingiram o norte venezuelano. Milhares de pessoas perderam suas casas, centenas morreram, equipes de resgate ainda procuram desaparecidos e milhões dependem de ajuda humanitária.
Diante de uma catástrofe dessa dimensão, uma pergunta inevitável surge: por que algumas tragédias mobilizam tanto a opinião pública, enquanto outras parecem desaparecer rapidamente do debate?
Essa reflexão não pretende diminuir o sofrimento de nenhum povo. A dor de uma família israelense, palestina, ucraniana, sudanesa ou venezuelana possui exatamente o mesmo valor moral.
O sofrimento humano não deveria ser medido pela nacionalidade, pela ideologia ou pela conveniência política.
Entretanto, é impossível ignorar que muitas vezes a indignação coletiva parece funcionar de maneira seletiva.
Em determinados conflitos, multiplicam-se campanhas, manifestações, fotos de perfil, hashtags e pronunciamentos emocionados. Em outras situações, o silêncio é quase absoluto, mesmo quando milhares de vidas são afetadas.
Essa seletividade não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. Ela atravessa praticamente todo o espectro político. Cada grupo tende a demonstrar maior sensibilidade diante das vítimas que reforçam sua narrativa e menor disposição para enxergar o sofrimento que desafia suas convicções.
No Brasil, esse fenômeno também aparece no debate público. Há pessoas profundamente sensibilizadas pelas vítimas em Israel, mas que quase nada comentam sobre a tragédia venezuelana. Da mesma forma, existem aqueles que denunciam com vigor determinadas violações de direitos humanos e permanecem silenciosos diante de outras.
Quando a compaixão depende da identidade das vítimas ou da posição política dos governantes envolvidos, ela deixa de ser um princípio moral para se tornar um instrumento ideológico.
A misericórdia não pode escolher passaporte.
A solidariedade não deveria perguntar em quem a vítima vota.
Os direitos humanos não podem valer apenas quando favorecem determinada narrativa.
A própria ideia de ética exige coerência. Se condenamos a morte de inocentes em um lugar, devemos condená-la em qualquer lugar. Se defendemos ajuda humanitária para um povo, devemos fazê-lo para todos os povos submetidos ao sofrimento.
A Venezuela merece atenção não porque sua tragédia seja maior que outras, mas porque vidas humanas jamais deveriam disputar espaço em uma hierarquia de importância.
Os recentes terremotos apenas agravaram uma situação que já era extremamente frágil. Anos de cerco e crise econômica, infraestrutura precária e dificuldades no sistema de saúde tornaram a resposta ao desastre muito mais difícil, aumentando o sofrimento da população.
Talvez a pergunta mais importante não seja por que algumas tragédias recebem mais atenção do que outras.
A pergunta correta é: nossa compaixão está sendo guiada pela humanidade ou pela ideologia?
Enquanto a resposta depender da bandeira hasteada sobre o território atingido, continuaremos praticando uma ética seletiva, uma ética que escolhe quem merece nossas lágrimas.
E uma misericórdia que precisa escolher suas vítimas deixa de ser misericórdia para se tornar apenas preferência.
Comentários
Postar um comentário