O Mito do Passado Glorioso e o Futuro que Ficou na Promessa
Cresci, como tantos da minha geração, ouvindo a frase que se tornou quase uma certidão de nascimento do nosso sentimento nacional: “O Brasil é o país do futuro.” Era uma promessa confortadora. Sugeria que o progresso, a justiça social e a prosperidade eram destinos inevitáveis, apenas aguardando a sua hora de chegar.
Hoje, passados muitos anos, contemplo o tempo decorrido e sou forçado a encarar uma verdade desconfortável: o futuro nunca chegou. Pior do que isso, a própria ideia de futuro parece ter sido abandonada em troca de uma miragem ainda mais perigosa: a obsessão por um "passado glorioso" que jamais existiu.
A armadilha da nostalgia inventada
Quando uma sociedade perde a capacidade de projetar um amanhã inclusivo e moderno, ela costuma se refugiar na saudade do que nunca foi. O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas aqui ganha contornos dramáticos. Trata-se do reacionarismo nostálgico: a tentativa de vender a ilusão de que "antigamente tudo era melhor, mais seguro e mais correto".
Mas que passado é esse ao qual insistem em nos arrastar de volta?
Se olharmos para a história sem os óculos cor-de-rosa do autoritarismo, a realidade do nosso passado é marcada pela violência estrutural, pelas cicatrizes nunca cicatrizadas da escravidão, pela desigualdade abissal e pelo sufocamento das liberdades. O "passado glorioso" invocado pelos discursos extremistas nada mais é do que o desejo de preservar privilégios, silenciar divergências e manter intacta uma hierarquia social arcaica.
Por que o futuro foi continuamente adiado?
A frase de que somos o "país do futuro" sempre serviu como uma anestesia coletiva. Se o amanhã seria grandioso por natureza, não precisávamos fazer o dever de casa no presente: não precisávamos reformar a educação, não precisávamos enfrentar o racismo estrutural, nem precisávamos acertar as contas com os abusos da nossa história.
Ao adiar o futuro indefinitivamente, abrimos espaço para que as velhas sombras do passado retornassem de tempos em tempos. E cada ascensão de visões autoritárias e saudosistas não é um acidente, mas o sintoma de um país que prefere a segurança anestésica do retrocesso ao esforço consciente de construir o novo.
O dever de não se resignar
Compreender que fomos enganados pela promessa do futuro não significa aceitar a derrota. Significa mudar a pergunta.
O futuro não é um trem com horário marcado que chegará sozinho na estação. Ele só existe se for construído a partir do confronto direto com as nossas heranças mais sombrias: a tortura, a exclusão, o autoritarismo. Enquanto insistirmos em olhar pelo retrovisor para buscar respostas em eras de opressão, continuaremos presos a um presente estagnado.
Agora, com o peso dos anos nas costas, vejo com clareza que o Brasil não tem um "passado glorioso" a resgatar. Tem, sim, um presente urgente a corrigir para que, finalmente, possamos parar de esperar pelo futuro e comecemos a construí-lo.
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