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Duas Democracias, Duas Ameaças: O Que a Alemanha de 2026 Nos Ensina Sobre a Interferência Estrangeira no Brasil


Introdução


Em setembro de 2026, a Alemanha viveu um fim de semana eleitoral que expôs, em toda a sua dramaticidade, as contradições políticas da Europa contemporânea. No mesmo domingo, 20 de setembro, a extrema direita conquistou sua segunda vitória estadual consecutiva em menos de um mês, enquanto a esquerda radical obtinha uma vitória histórica na capital Berlim. O contraste não poderia ser mais eloquente: a Alemanha é hoje um país dividido entre o avanço avassalador da extrema direita no leste e a resistência da esquerda nos grandes centros urbanos.


Do outro lado do Atlântico, o Brasil se prepara para uma eleição presidencial em 2026 sob um cenário que combina ameaças institucionais internas e uma interferência estrangeira aberta e documentada - desta vez, protagonizada pelo governo de Donald Trump.

Este artigo propõe um paralelo entre os dois processos eleitorais. Não se trata de sugerir que os contextos sejam idênticos, mas de extrair lições: enquanto a Alemanha demonstra como a esquerda pode resistir e até vencer em meio ao avanço da extrema direita, o Brasil enfrenta um teste de soberania que nenhuma democracia deveria ser forçada a atravessar.


A Alemanha em 2026: A Extrema Direita Avança, a Esquerda Resiste


O Terremoto no Leste: AfD Vence em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental


No domingo, 20 de setembro, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou uma vitória histórica nas eleições estaduais de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste do país. Segundo os resultados provisórios, a AfD obteve 38,3% dos votos, tornando-se a legenda mais votada do estado. O partido dobrou sua votação em relação à eleição anterior e ficou ligeiramente à frente do Partido Social-Democrata (SPD), da governadora Manuela Schwesig, que obteve 35,5%.


O resultado foi catastrófico para a CDU do chanceler Friedrich Merz, que obteve apenas 4,9% dos votos e, pela primeira vez na história do pós-guerra, ficou de fora do parlamento estadual por não atingir a cláusula de barreira de 5%. Merz classificou o resultado como "uma catástrofe" e, embora tenha descartado a renúncia, prometeu seguir com reformas.


Esta foi a segunda vitória estadual consecutiva da AfD em menos de um mês. Em 6 de setembro, o partido havia conquistado 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt, seu melhor resultado em uma eleição estadual até então. A co-presidente da AfD, Alice Weidel, declarou que seu partido "já substituiu" a CDU como o novo partido popular da Alemanha.


Apesar do avanço eleitoral, a AfD continua isolada politicamente. Todos os demais partidos alemães mantêm um "cordão sanitário" que rejeita qualquer coalizão com a extrema direita. Tino Chrupalla, co-presidente da AfD, pediu a renúncia de Merz, mas o partido não tem parceiros para formar governo em nenhum dos estados onde venceu.


Berlim: A Vitória Histórica da Esquerda


Enquanto a extrema direita dominava o leste, Berlim caminhava na direção oposta. O partido Die Linke (A Esquerda) conquistou uma vitória histórica na capital alemã, obtendo 25,7% dos votos — mais que o dobro do resultado de 2023 — e se tornando a maior força política do parlamento estadual pela primeira vez. A CDU de Merz ficou em segundo lugar com 18,8%, seguida pela AfD (16,3%), os Verdes (14,3%) e o SPD (12,1%).


A vitória foi liderada por Elif Eralp, jurista de 45 anos, filha de refugiados turcos, que pode se tornar a primeira prefeita de Berlim de origem imigrante e a primeira governante da capital pelo partido que surgiu do antigo partido comunista da Alemanha Oriental. Eralp fez campanha com foco no custo exorbitante da habitação, prometendo nacionalizar as associações de habitação privadas que representam uma grande parte do parque habitacional da cidade.


O Die Linke venceu em seis dos doze distritos de Berlim (Pankow, Mitte, Friedrichshain-Kreuzberg, Neukölln, Lichtenberg e Treptow-Köpenick), com destaque para Friedrichshain-Kreuzberg, onde obteve 40,1% dos votos. A vitória representa uma reviravolta notável para um partido que, há poucos anos, lutava para manter relevância nacional.


O Contexto Político Alemão em 2026


O quadro político alemão em 2026 é de fragmentação e instabilidade. A CDU e o SPD, os partidos que tradicionalmente dominaram a política alemã, perderam espaço significativo. Nas eleições federais de fevereiro de 2025, a CDU/CSU venceu com 28,5%, e o SPD amargou seu pior resultado histórico com 16,4%. O Die Linke havia ressurgido com 8,8%, e a AfD dobrou sua votação para 20,8%.


Em 2026, esse cenário se aprofundou. A AfD consolidou-se como a principal força no leste alemão, enquanto a CDU de Merz enfrenta uma crise de legitimidade sem precedentes. O chanceler alemão viu seu partido ser expulso do parlamento de um estado pela primeira vez desde 1949, e sua liderança é questionada mesmo dentro de suas próprias fileiras.


A Alemanha vive, portanto, uma situação paradoxal: a extrema direita avança eleitoralmente, mas permanece isolada politicamente; a esquerda radical vence em Berlim, mas enfrenta o desafio de formar coalizões em um cenário fragmentado. O que está em jogo não é apenas o futuro político do país, mas a própria capacidade do sistema democrático alemão de conter forças extremistas.


O Brasil: Democracia Sob Ataque Estrangeiro


Enquanto a Alemanha processa seu resultado eleitoral, o Brasil se prepara para 2026 em um cenário que mistura ameaças internas e externas de uma gravidade sem precedentes.


A Interferência Documentada do Governo Trump


Em outubro de 2025, durante as negociações sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, o governo de Donald Trump apresentou ao Brasil um documento com 21 exigências. Entre elas, constava uma demanda para que o país se comprometesse a realizar eleições presidenciais "livres e justas" e a não deter, prender ou limitar "arbitrariamente" a participação de "dissidentes políticos" no processo eleitoral. O governo brasileiro rejeitou a inclusão de questões políticas internas nas tratativas comerciais.


A exigência, no entanto, não era um episódio isolado. Um relatório sigiloso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como crítico o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento, enviado à Presidência da República, ao TSE e ao Ministério da Justiça, aponta que o governo americano busca "reafirmar a hegemonia na América Latina, reduzindo a influência de potenciais rivais, como a China, no acesso a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura".


A "Missão Eleitoral" Barrada pelo Itamaraty


Em julho de 2026, o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam visitar o Brasil para uma autodenominada "missão eleitoral". Riley Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, subsecretário-assistente, responderam diretamente a Marco Rubio, um dos principais aliados da família Bolsonaro em Washington.


Reportagem do The Washington Post revelou que os dois funcionários tinham planos de "preparar um ataque à confiabilidade das urnas e do sistema eleitoral brasileiro". Fontes do governo brasileiro avaliaram que a viagem buscava reforçar a campanha de desinformação contra o sistema eletrônico de votação, relançada nos últimos dias a partir de declarações do próprio Flávio Bolsonaro e de seu irmão Eduardo.


O chefe da assessoria internacional da Presidência, Celso Amorim, foi categórico: "A vinda de funcionários estrangeiros não convidados para inspecionar o sistema eleitoral é uma interferência que desrespeita a nossa soberania".


A Conexão CONIB e a Indicação para o Ministério da Saúde


Em agosto de 2026, Flávio Bolsonaro anunciou o médico Cláudio Lottenberg como seu futuro ministro da Saúde, caso eleito. Lottenberg presidia a Confederação Israelita do Brasil (CONIB) - entidade que, segundo o Diário Causa Operária, é responsável por "sucessivas ações contra o PCO" e integra o que o veículo chama de "lobby sionista no Brasil".


Após o anúncio, Lottenberg pediu licença da presidência da CONIB, sendo substituído interinamente por Ary Berger. A indicação de um dirigente de entidade com atuação política declarada para um ministério de um candidato que nega interferência estrangeira levanta questionamentos sobre as reais motivações por trás da escolha.


A Rockbridge Network: Financiamento Estrangeiro sob Suspeita


Talvez o elemento mais grave da interferência documentada seja a atuação da Rockbridge Network, empresa fundada por J.D. Vance, atual vice-presidente dos Estados Unidos, e pelo empresário Chris Buskirk. A Rockbridge Brazil LLC foi aberta em maio de 2026 em Wyoming, com a assinatura de Chris Applegate, assessor responsável pela captação de recursos para candidatos republicanos há mais de duas décadas.


O empresário carioca Pedro Sang, apontado como articulador da Rockbridge no Brasil, passou a atuar dentro da estrutura da campanha de Flávio Bolsonaro. Segundo reportagem do Amado Mundo, Sang participou da montagem do comitê do senador em São Paulo e se apresentava no local como "Pedro da Rockbridge". A legislação eleitoral brasileira proíbe que campanhas recebam, direta ou indiretamente, recursos provenientes de entidades ou governos estrangeiros.


O PT protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de abertura de inquérito policial para investigar o suposto financiamento ilegal da campanha de Flávio Bolsonaro pela Rockbridge. A conexão com o governo americano é direta: a Rockbridge foi fundada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, e seu braço brasileiro foi constituído por um assessor do Partido Republicano.


Paralelo com a Alemanha: Resistência Democrática em Dois Continentes


O paralelo com a Alemanha de 2026 é inevitável e instrutivo. Nos dois países, forças de extrema direita avançam eleitoralmente, enquanto a esquerda busca se reorganizar e resistir.


Na Alemanha, a AfD venceu duas eleições estaduais consecutivas em setembro de 2026, mas permanece isolada politicamente pelo "cordão sanitário" dos demais partidos. Em Berlim, o Die Linke venceu com uma plataforma focada em habitação e custo de vida, demonstrando que a esquerda pode conquistar vitórias significativas quando oferece respostas concretas às ansiedades materiais do eleitorado.


No Brasil, a ameaça é de outra ordem. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral entre projetos políticos distintos, mas de uma interferência estrangeira documentada que busca minar a própria integridade do processo democrático. A diferença crucial é que, na Alemanha, a interferência estrangeira (seja através de Elon Musk ou de programas de financiamento americanos) foi tratada como uma ameaça à soberania nacional e enfrentada com instrumentos institucionais. O governo alemão não hesitou em classificar a atuação de Musk como potencialmente ilegal e em exigir respeito ao processo democrático alemão.


No Brasil, a interferência é mais profunda e multifacetada. Não se trata apenas de declarações ou endossos, mas de:


1. Exigências formais embutidas em negociações comerciais, como a demanda pela participação de "dissidentes políticos";

2. Tentativas de envio de funcionários para questionar a integridade do sistema eleitoral;

3. Financiamento suspeito através de uma rede empresarial ligada ao vice-presidente americano;

4. Indicações ministeriais que conectam a campanha a entidades com agendas políticas específicas.


A Alemanha enfrentou a interferência com firmeza institucional. O Brasil, por sua vez, vê a interferência se infiltrar nas próprias estruturas da campanha oposicionista.


O Que Está em Jogo


A comparação entre os dois processos eleitorais revela uma assimetria preocupante. Na Alemanha, a esquerda venceu em Berlim porque ofereceu respostas concretas a um eleitorado ansioso, mesmo em um cenário de avanço da extrema direita. No Brasil, a ameaça não é apenas a derrota eleitoral, mas a própria integridade do processo democrático.


O relatório da Abin não é um documento qualquer. É a avaliação da principal agência de inteligência do Estado brasileiro, classificando como crítico o risco de interferência estrangeira. Quando um órgão de inteligência usa esse termo, não está fazendo retórica política, está emitindo um alerta de segurança nacional.


A exigência americana de que o Brasil se comprometesse a não "deter, prender ou limitar arbitrariamente a participação de dissidentes políticos" é particularmente reveladora. Na prática, significa que o governo Trump quer garantir que aliados políticos brasileiros, notadamente os envolvidos nos atos de 8 de janeiro e outros casos de questionamento do sistema eleitoral, possam participar livremente do pleito, sem consequências legais.


A tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para "inspecionar" o sistema eleitoral brasileiro, com planos documentados de "preparar um ataque à confiabilidade das urnas", é uma afronta direta à soberania nacional. O fato de que esses funcionários respondem diretamente a Marco Rubio, aliado declarado da família Bolsonaro, expõe a coordenação entre a campanha de Flávio e o governo americano.


Conclusão: Soberania Não Se Negocia


A Alemanha de 2026 oferece duas lições complementares. A primeira é que a extrema direita pode avançar eleitoralmente mesmo quando isolada politicamente (a AfD venceu em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e na Saxônia-Anhalt, mas não tem parceiros para governar. A segunda é que a esquerda pode vencer quando oferece respostas concretas às ansiedades materiais do eleitorado) o Die Linke conquistou Berlim com uma campanha focada em habitação e custo de vida.


O Brasil, no entanto, enfrenta uma ameaça de outra ordem. Não basta que a esquerda brasileira se reinvente ou apresente propostas, é preciso que o próprio processo eleitoral seja protegido da interferência estrangeira que se anuncia. A Abin já alertou. O Itamaraty já reagiu. O TSE já foi notificado.


O que resta saber é se as instituições brasileiras terão a mesma firmeza que a Alemanha demonstrou ao enfrentar a interferência de Elon Musk e as pressões do governo Trump. A resposta a essa pergunta definirá não apenas o resultado de 2026, mas a própria natureza da democracia brasileira nas próximas décadas.


A Alemanha nos ensina que a esquerda pode vencer mesmo quando a extrema direita avança. Mas, para que qualquer vitória seja legítima, a democracia precisa primeiro sobreviver.

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